Os relações públicas são como os
trapezistas, a linha que os separa de bestiais a bestas é sempre muito ténue. São uma das profissões mais stressantes dos últimos anos e que toda a gente diz que consegue
fazer, que não são necessários grandes conhecimentos, que são muitas vezes um
centro de custos, que não geram vendas, que...mais um chorrilho de coisas em
que ser associado ao tipo que está à porta da discoteca e conhece meio-mundo ou
o tipo que serve croquetes na festa até parece ser do mais positivo da
profissão. A apostar em carreira é em funções prescritivas, isto é, funções em
que o que dizes é lei e é aceitável que tenhas um ordenado acima da média
porque é preciso "realmente estudar”. Profissões como médico, controlador
aéreo, advogado, financeiro, nas quais o discurso hermético e a
"utilidade" existe mesmo e são especialistas por áreas.
Depois destas linhas todas deves estar
a questionar porque raio então escolheste tu, pai ser RP? Primeiro porque
percebi muito cedo que adequar a mensagem aos diferentes públicos salva muito
gente de problemas. Na escola evitei apanhar porrada e ser roubado, eu e outros
miúdos igualmente pequenos e timídos, ao tornar-me amigo dos bullies; ao tentar
perceber a sua perspetiva de fazer um corredor para nos dar pontapés e calduços
à saída do pavilhão ou querer "aliviar-nos" do almoço ou do dinheiro
da carteira. Depois, todos os dias tens desafios diferentes, tanto pode ser uma
crise como lançar um novo produto, como ter que comunicar algo a uma equipa
inteira, contribuir para criar uma marca de raiz, entre tantos outros. Desafios
em que tens por vezes segundos para tomar decisões críticas à la piloto de
fórmula 1, em que uma palavra mal dita pode ter consequências muito negativas.
No entanto, se no piloto és a estrela, nas RP, as estrelas devem ser os outros.
E isso também é algo que adoro no trabalho que faço, de fazer brilhar pessoas e ideias que de outra forma não seriam conhecidas.
Mais, regra geral tens sempre budgets reduzidos ou "no budgets" mas
tens que fazer acontecer e no mais curto espaço de tempo, imagina a adrenalina
que não é! Tens que provar constantemente que vale a pena investir no teu
trabalho, que é um trabalho que também é, atenção 1, especializado, que também
requer, atenção 2, formação, que também necessita, atenção 3, talento. Conheces
seres humanos fantásticos, que estão sempre disponíveis para fazer mais e
melhor, mesmo recebendo pouco. Permite-te perceber o máximo da profissão dos
outros e procurar com ela interagir da melhor forma, por mais hermética que
seja. Permite-te colocar no papel dos outros para perceber a sua perspetivas
das coisas por mais "twisted" que elas sejam. Não faz do teu pai a
pessoa mais rica de dinheiro mas rica de relações, rica de felicidade no que
faz e sobretudo rica por poder contar histórias diferentes todos os dias que
ficariam por contar muitas vezes.
PS: 14 anos depois a tua avó
"Guta" continua sem saber muito bem o que é que o filho dela, senhor
teu pai faz, mas amo-a e agradeço-lhe tanto mais por isso, porque me ajudou
vezes sem conta com o "efeito da minha mãe", isto é, a perceber que se o que a marca A ou B lhe diz ela não entende,
a maior das pessoas não entenderá também. Mais, foi o espírito falador e de enorme
coração em ajudar os outros que contribuiu grandemente para eu escolher ser RP
(isso e poder vir a ser o tipo à porta da discoteca que decidia quem entrava na
mesma e todas as miúdas giras o queriam conhecer).
(A diferença que um trabalho "menor" pode fazer)