O que separa os Homens dos homens não é a
coragem mas a Honestidade, Humildade e Honra, algo que o teu avô Tino me
ensinou sem dizer uma palavra. Era o herói dos heróis. As primeiras recordações
que tenho dele era de um Super Homem porque parecia indestrutível (levou com um tijolo na cabeça um dia numa
obra e apesar do corte severo, foi a casa colocar álcool e voltou para o
trabalho como se nada fosse. Anos mais tarde estava a fazer um telheiro à tua
Tia Rute e vi-o voar literalmente para cima de uma mesa, partir a pedra da
mesma, ficar com os dedos dobrados para trás, empurrá-los para a frente e
prosseguir como se nada fosse; cortava pedra numa nuvem de pó irrespirável e
saía a rir-se, ou envernizava um sótão com 30 e tal graus como quem bebe uma
cerveja).
De Super Homem passou a ser o meu Manny
Mãozinhas porque o vi construir prédios como tu hoje fazes legos, ensinando-me como
fazer massa ou uma parede direita com o fio-de-prumo. Vi-o pregar pregos com
duas marteladas, levantar nove tijolos burro com um braço, pegar em vigas que
só eu e o tio Pedro na flor na idade conseguíamos pegar os dois juntos. Foi o
primeiro trabalho que desejei fazer, agarrado ao sem número de ferramentas que
ele nos punha nas mãos.
Com os colegas Horácio, Faísca, José Augusto e
outros era o Jake e os Piratas para mim e para o tio Pedro, que conseguiam
fazer nascer casas para os outros e no fim comer uma feijoada feita pelo avô (e
ai de quem falasse de trabalho ao almoço e fosse mais que os outros, era garrafão
pago na certa). Não fazes ideia do quanto gostava de ir no dia 31 de Julho
apanhar o comboio de madrugada a ver as luzes dos barcos para estar com eles
antes do mês de férias de Agosto.
Em casa era o nosso Hulk, pois tudo o que
tinha problemas em funcionar um murro ou uma martelada arranjava sempre (perdi
conta às vezes que vi os óculos voar só porque se embaciavam quando estava a
fazer algo importante). Era a televisão, os móveis, ou eram os carros (nunca
mais esqueço um dia vir a acelerar o seu mítico Morris Marina, que levava dez
pessoas e cinco sacas de batata, com um cordel preso ao acelerador).
Era também o Sebastião Come Tudo, não porque
fosse de comer muito mas porque tinha o que chamava de “filosofia de guerra”,
isto é, tudo o que viesse, morria. Podias-lhe dar cinco vezes o mesmo prato de
seguida que nunca se queixava (“só não como beringelas e em casa, que fora se
me as derem como”). Tinha ainda uma tirada de inspetor Gadget, pois era comum
ter no carro tudo e mais um par de botas (papel higiénico nunca faltava), na
arrecadação peças para arranjar o mundo todo e no corpo um esquema certo para
caso fosse tomado por três ou quatro assaltantes (“um ou dois, o primeiro murro
é meu”).
Não foram poucas as vezes que ao lado dele me
senti acompanhar o Zorro, pois não podia com injustiças (como certa vez quando
pessoas com alguma idade queriam entrar no comboio e uns pintas não deixaram,
até ele meter as mãos nas portas e dizer que agora mandava ele; ou quando o
comissário da polícia teimava em parar carros à sua porta e dos vizinhos só
porque sim e ele lhe disse que lhe chegava a roupa ao pelo, ou da última vez
que fomos à Feira da Ladra no outono e uns mafiosos levavam as portas do
comboio abertas e ele disse enquanto lia o comboio “está calor como o caraças
para os c****** estarem com frio nos c*****!”).
O trabalho tomava-lhe a semana e o
fim-de-semana para termos todos uma vida melhor mas tinha ainda tempo para ser
o Yoda de muitos, ao ser pastor da Igreja Evangélica. Não te sei dizer as vezes
que o vi acalmar drogados, malucos e afins que queriam destabilizar a “missa”
enquanto ele pregava para os seus irmãos. Leu a bíblia católica e a protestante
duas vezes e ainda olhou seriamente para a dos Testemunhas de Jeová. Era
exigente como o professor Xavier, no sentido de dar sempre o melhor e procurar
sempre fazer melhor do que os que precederam “para o nosso bem, porque o balde
de massa estaria sempre garantido”. Não me lembro de faltar a um dia de
trabalho ou de ficar em casa doente mas lembro-me de acordar às 5h e picos da
manhã todos os dias, de raramente se queixar do trabalho, dos colegas ou da
situação do país. Sabes, saiu de casa com oito anos e o primeiro ordenado foram
umas botas para pôr nos pés.
Demorei alguns anos a percebê-lo mas quando o
percebi passou a ser o meu Chefe, o meu Panoramix, aquele que bastava um olhar
ou um sorriso para perceber que ia sair das boas (“agora para mim era bom era
uma moça de 20 anos. Para quê? Dizia toda a gente. O que é que você fazia com
ela? Respondia: fazia o mesmo que quando era novo…o que podia”).
Recordo, como se fosse ontem, a felicidade que
foi ver-me casar com a tua mãe ou quando fui batizado com 32 anos. Era um
brilhozinho nos olhos e um sorriso que só me lembra o meu ídolo da juventude
Charles Bronson. Era o mesmo brilho que o acompanhava quando vinha cá a Vila
Franca em tempo de largadas e comia um bacalhau à Portimonense.
Era um grande contador de histórias, mesmo que
ouvisses a mesma história mil vezes do colega na tropa que bêbado disparou tiros
no quartel de Santa Margarida e meteu mais de 20 mil homens em sentido com medo
da guerra ou do muro do vizinho que deitou abaixo com o padrinho quando outros
ameaçavam fazê-lo e que deu guerra na terra (pensavas que ele era 100% santo? Também
fez das dele, algumas que te contarei mais tarde).
Infelizmente já o conheceste limitado numa
cama e sem capacidade para te poder mostrar o tanto de super-herói que tinha. Pudesse
eu colocar neste texto tudo o que ele era. Posso-te pedir uma última forma de o
recordar: como o Lucky Luke montado no seu Jolly Jumper (no caso dele, no
mítico Morris Marina) com o Rantanplan (o nosso amado Putchi) ao seu lado rumo
ao pôr-do-sol.
<3
ResponderEliminarQue texto maravilhoso! Tenho a certeza que o avó vai estar sempre presente na vida do Francisco. Como o teu pai, és um grande contador de histórias e por isso as dele nunca se vão perder. <3
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarMeu Puto Mais Giro, lê com atenção este pequeno e fabuloso texto do teu pai, existem mais histórias que ele te contará sobre o Chefe, porém, existe uma que o teu avô disse uma vez indo com o teu pai no comboio. Situação essa em que um grupo de rufias estavam fixamente a olhar para o teu avô, ao que ele respondeu ao rufia e sem hesitar: "Se me vais comer, vais ter de me cagar". é talvez uma expressão forte quando escrita, mas acredita que é uma maxima que muitas vezes vais ter de adoptar! ;) o Padrinho depois explica :)
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